Uma mulher - professora- pesquisadora - política

Uma mulher intelectual é tratada como uma perturbação, porque é impossível domesticá-la- Simone de Beauvoir

6/7/2026

Minha pré-candidatura não é uma ruptura com a pesquisa, é o pensamento se recusando a permanecer dentro dos muros da universidade. Há uma tensão real entre pensar e agir: o pensamento precisa de dúvida, ambiguidade, revisão. A ação exige urgência, irreversibilidade, tomar partido antes da certeza absoluta, mas a certeza nunca chega, e enquanto se espera, o Estado segue matando mulheres pela ausência de acesso ao direito de estar viva e com dignidade. Mas em nenhum caso o pensamento fica intacto após o contato com a ação, e em nenhum caso a ação fica pura após o contato com o pensamento. É exatamente dessa tensão produtiva que quero fazer política.

Não quero ser a acadêmica que cita mais do que pensa, nem a militante que repete slogans e palavras de ordem sem elaboração, mas aquela que emerge de uma luta, e devolve a essa comunidade uma compreensão mais clara de si mesma. Venho de dez anos de organização feminista no interior de São Paulo. Minha pesquisa sobre feminicídio não é abstração: é a tentativa de nomear geograficamente o que mata mulheres. Estar pré-candidata é, simplesmente, levar esse pensamento a sério o suficiente para agir.


Uma mulher perturba antes mesmo de falar — pelo corpo que tem, pelo espaço que ocupa, pela recusa em ser domesticada. Crescemos num mundo que nos ensinou que ele funciona melhor quando não pensamos. Funciona melhor para quem? Essa é, em si, uma pergunta geográfica e é a pergunta que organiza minha vida inteira, como pesquisadora, como professora, como mulher pública. Quando me atrevo a produzir pensamento crítico sobre onde estão as mulheres silenciadas e violentadas, perturbo pelo que digo, pelo que escrevo e pelo corpo que existe antes das palavras.